sábado, 28 de janeiro de 2012

Acontecimentos

Muitas coisas aconteceram nos últimos meses. Infelizmente, parte da grande mídia destaca apenas as tragédias (coletivas ou individuais), explorando ao máximo a emoção do telespectador. A repetição incansável de cenas de assaltos, agressões, colisões, entre outros, já ganhou as manhãs e os finais de tardes dos brasileiros. Pra piorar a situação, ainda é preciso conviver com a opinião de comentaristas conservadores, que não perdem a oportunidade de atacar os movimentos sociais organizados ou o governo Dilma.

Caso gritante foi a operação de reintegração de posse do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, nesta semana, que contou com a participação de 2 mil policiais militares, muita bala de borracha e bomba de efeito moral. Pra quem não sabe, a PM considera esse tipo de armamento "não letal" (desde que não atinja um olho ou mate alguém do coração). De outro lado, cerca de 9 mil pessoas que ocupavam o local há 8 anos, ou seja, homens, mulheres e crianças. O terreno pertence à empresa Selecta, do megaespeculador Naji Nahas (aquele mesmo que foi preso pela Polícia Federal em 2008 na operação conhecida como Satiagraha). Segundo o deputado federal Delegado Protógenes Queiroz (PCdoB), autor da operação que prendeu Nahas, a desocupação do Pinheirinho foi um verdadeiro massacre. Ele também suspeita de motivações obscuras do governo do estado de São Paulo em optar pela ação de despejo e não de encontrar outra solução para o caso.

Ora, as famílias já estavam estabelecidas, com casas de alvenaria, comércio, igrejas, associações. Uma saída pacífica, negociada, deveria passar pela desapropriação da área, com indenização (ainda que o dono seja um Naji Nahas da vida) e a oficialização do bairro. Bem que o governo federal tentou intervir, mas Geraldo Alckmin, misteriosamente, não quis. Preferiu se esconder nas barras da saia da Justiça. Sua PM e a Guarda Municipal local protagonizaram então no domingo, 22 de janeiro, cenas deploráveis de ataque a pessoas indefesas, sem poupar crianças e idosos.

A função social da terra deveria ser mais do que simples letras (mortas?) escritas na Constituição Federal. E as autoridades, tanto o Judiciário quanto o Executivo, poderiam ser mais sensíveis e políticos do que meramente técnicos. A frieza (e alguns interesses inexplicáveis) parece ter vencido por ora os assustados e injustiçados moradores do Pinheirinho. Em algum alojamento improvisado, mais exatamente no banheiro de um ginásio de esportes, um pai de família tampou os vasos sanitários para diminuir o mau cheiro e oferecer um pouco de dignidade a sua mulher e filhos. Ele talvez esteja pensando neste momento que o sol não nasceu para todos, mas apenas para os "espertos".