A ironia é um dos ingredientes prediletos dos cronistas. E esta aqui não poderia passar em branco. Nesta semana, a população revoltada de Curralinho, que fica na Ilha de Marajó, no Pará, ateou fogo na Câmara Municipal e depredou a prefeitura e as secretarias de Educação e de Saúde. Motivo: os vereadores não abriram processo de cassação contra o prefeito Miguel Pedro Pureza Santa Maria (PSDB). O chefe do Executivo tucano é acusado pela Controladoria-Geral da União (CGU) de não ter comprovado investimentos de quase R$ 10 milhões (repasses para a Educação e Saúde) e há suspeita de desvio do dinheiro enviado pelo governo federal.
Obviamente que a ironia do assunto está no sobrenome do prefeito, que não foi encontrado pela reportagem da Folha de S.Paulo para comentar o assunto. “Pureza”. E pior: “Pureza Santa...”. Sei que todo cidadão deve respeitar as leis e procurar não cometer crimes, mas quem carrega nomes desse tipo não deveria ter uma atenção redobrada?
Outro caso emblemático aconteceu em 1993, quando o então presidente da Câmara Federal, Inocêncio Oliveira (antigo PFL e hoje DEM), tornou-se alvo de um escândalo envolvendo o uso de brocas de perfuração em sua fazenda em Pernambuco. O problema é que as brocas pertenciam a DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca), uma autarquia que devia priorizar o que o nome diz “combater a seca” (outra ironia) e não privilegiar “coronéis”. Na ocasião, a inocência de Inocêncio caiu por terra, mesmo tendo tentado se explicar publicamente.
Em 2003, foi o escândalo do “Mensalinho”, envolvendo o presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcanti (PP) e o empresário Sebastião Buani que afirmara pagar R$ 10 mil mensais para manter seus restaurantes na sede da Câmara. A ironia está no nome do político Gonzaga Patriota (PSB), que teria recebido metade do valor pago para que fosse prorrogada a concessão de um dos restaurantes. “Patriota” pressupõe aquele que ama a sua Pátria e até daria a vida por ela. Mas...
Os nomes carregam um peso. As pessoas públicas carregam uma responsabilidade. A equação gerada aqui só complica a situação de uma pessoa pública envolvida em algum escândalo e que carrega um nome cujo significado o oposto de suas ações. É o peso do nome...
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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