sábado, 12 de março de 2011

Acorrentada

O título desta crônica parece remeter a um filme de terror, com excessivos requintes de crueldade e muita tensão no ar. Na verdade, é apenas parte do título de reportagem de um certo telejornal numa pacata manhã de quinta-feira, de 24 de fevereiro de 2011, século XXI, era Cenozóica. O título diz exatamente o seguinte: “Mulher se acorrenta em escola por vagas para os filhos”.

Essa forma de protesto não é novidade. Em 1999, o diretor de uma escola estadual, em Cotia, se acorrentou num dos pilares do pátio até que sua reivindicação à Secretaria Estadual de Educação fosse atendida. Mais tarde, ele ainda faria uma greve de fome, ficando acampado por vários dias em frente à sede da Secretaria, na Praça da República.

No caso da mãe sem vagas para os filhos, o que chama a atenção é a forma como o governo estadual vem tratando os cidadãos e os profissionais de ensino. Inventaram um tal de “sistema” que se tornou a grande desculpa para tudo. “Ah, o sistema não aceitou a matrícula de seu filho...”; “O sistema não aceita nota zero, só de um a dez...”; “O sistema isso, o sistema aquilo...”.

O sistema vem ganhando vida e poder a cada dia. E cada vez mais estamos submetidos a ele.

A pobre mãe apresentou à reportagem daquele telejornal documentos protocolados na Secretaria Estadual de Educação, que ela disse ter conseguido somente após acionar a Polícia Militar (Uau! Ela colocou o Estado contra o Estado). Também apresentou documento emitido pelo Conselho Tutelar do Jaçanã, entre outros.

Bem, funcionou... Após a reportagem, a direção da escola chamou a mãe e garantiu as vagas tão solicitadas. Boca no trombone, rodar a baiana e chutar o pau da barraca muitas vezes funcionam...

A chamada cidadania plena ainda está longe de ser alcançada. Enquanto for preciso tomar medidas extremas para se obter aquilo que é direito do cidadão e dever do Estado, estaremos em transição da pós-barbárie para uma democracia de fato.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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