sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Viva o samba!


Gênero musical essencialmente brasileiro, o samba é comemorado nacionalmente no dia 2 de dezembro. Em 2004, o então ministro da cultura Gilberto Gil apresentou à Unesco o pedido de tombamento do samba como Patrimônio Cultural da Humanidade, na categoria "Bem Imaterial", através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No ano seguinte, o samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi proclamado "Patrimônio da Humanidade" pela Unesco, na categoria de "Expressões orais e imateriais".

Na verdade, demorou muito para que isso acontecesse. Demorou o suficiente para que o “samba de raiz” (partido alto e samba-de-roda) fosse transformado pela indústria fonográfica – com objetivos meramente comerciais sem se importar com a qualidade musical – naquilo que a partir da década de 90 ficou conhecido como “pagode romântico” ou simplesmente “pagode”.

Nas palavras do sambista e escritor e Nei Lopes, o pagode original da década de 80, que ainda carregava a essência do samba, foi transformado em um "samba diluído, expresso em um produto sem a malícia das síncopa e sem as divisões rítmicas surpreendentes, com letras infantilmente erotizadas e arranjos previsíveis e cada vez mais próximos da massificação da música pop".

A carreira de Nei Lopes começou nos anos 70 e ele vem desde os anos 90 esforçando-se pelo rompimento das fronteiras discriminatórias que separam o samba da chamada MPB, em parcerias com músicos como Guinga, Zé Renato e Fátima Guedes.

Na outra ponta, uma pesquisa realizada pelo cientista social Dmitri Cerboncini Fernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, propõe uma análise contemporânea dos gêneros populares urbanos e cria um escala de “autenticidade” com quatro subdivisões: o choro, o samba “tradicional”, o samba dos anos 80 e o samba dos anos 90. O choro é tido como o mais legítimo, seguido do samba representado por personagens surgidos na década de 1960, como Paulinho da Viola. O samba dos anos 80, ou pagode, é definido pelo estudo como aquele que tenta se ligar ao tradicional, embora não consiga de todo, dado o grande sucesso comercial já obtido. Zeca Pagodinho é um representante desse grupo. O samba dos anos 90, com grupos como Exaltasamba e Soweto, cujos artistas se espelham no grupo anterior e que não chega a ser classificado como samba pelos críticos, mas como “pagode comercial”. “Desses subgêneros musicais, o choro e o samba tradicional são tidos pelos intelectuais e críticos como os verdadeiros”, diz o pesquisador.

Fernandes analisou ainda que o gosto pelos subgêneros do samba está atrelado às camadas sociais. A maioria das pessoas que gostam do pagode comercial é jovem, com nível escolar mais baixo e moradores da periferia. Já o público do samba da década de 1980 é mais heterogêneo, com pessoas de uma faixa etária um pouco maior e que cursaram faculdade. O samba tradicional e o choro, por fim, possuem um público composto por uma maioria de pessoas com nível superior em boas faculdades, grande consciência política e que entendem de música. “Isso, de certa forma, reflete uma disputa simbólica entre classes no Brasil”, aponta Fernandes, que completa: “A denominação ‘autêntico’ parece, ao longo da história, ter servido à camada social dominante.”

A luta de classes também se dá no meio musical. Seja em qual gênero for, sempre que a forma e o conteúdo sofrerem simplificações, haverá um público pouco exigente moldado pela própria mídia. Enquanto a situação não muda, viva o samba (o de raízes)!

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

Fontes: Wikipédia; USP ; Blog da Cultura

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