Durante a Idade Média, quando a Europa mergulhava em seus mil anos de trevas, surgiu um ser muito estranho que se apresentava em forma de pensamento. Era o Ócio. Ele se esforçava muito, mas muito mesmo, para persuadir os reis e toda a nobreza da época que trabalhar era para as pessoas das camadas inferiores: a ralé, os camponeses, os servos.
A vida nobre se resumia a banquetes com grande fartura de alimentos e bebidas e toda sorte de excentricidades e exotismo possíveis. O Estado e a Igreja andavam de braços dados, mas sem perder de vista os membros da ralé mais revoltados com a situação.
Por esses tempos, o Ócio reinava tranquilamente, olhando enviesado de seu reino invisível, detendo, como já foi dito, grande poder sobre as ações (ou a falta delas) de reis e da nobreza.
Eis que um dia, em profundo ócio, o Ócio adormece e enfrenta terríveis pesadelos. Em seu sonho tumultuado, ele se vê munido de foice cortando trigo como os camponeses, ordenhando vacas e cabras. Depois se vê martelando ferro na bigorna, dando forma a ferramentas e armas. Para piorar, extrapola a barreira do tempo, e se vê no futuro, trabalhando numa linha de montagem de automóveis, limpando com um esfregão o chão de um enorme saguão, montando ferragens na construção de um prédio, recebendo contas atrás de um guichê, conduzindo um ônibus cheio de pessoas infelizes com suas vidas. Enfim, o Ócio acordou de repente, ainda tentando se livrar de um pedaço de pesadelo: estava numa sala de aula tentando ensinar alguma coisa para um bando de alunos mal educados.
Suspirou com alívio, limpou o suor da testa e foi até a janela dimensional de seu reino. De lá olhou para o mundo e viu que seus ideais de ócio já não existiam mais. O tempo havia passado enquanto dormira e as coisas mudaram. A nobreza fora destronada, a Igreja dividira-se entre católicos e protestantes. O trabalho agora era bem-vindo, já não era mais desonroso. O poder era de outra classe social que ascendera: a burguesia, cujo lema era “O trabalho enobrece o homem”.
Derrotado, cabisbaixo, o Ócio decidiu mudar de identidade. Virou o Negócio.
Mais tarde descobriria que, na verdade, seu alter ego havia articulado a mente humana naquele sentido, comprometendo seu passado glorioso e inaugurando a era do Trabalho.
Assim, o Negócio, que é a negação do ócio, ficou por conta daqueles que decidem de que forma explorar e manter a classe que lhe serve.
E até hoje os trabalhadores continuam em sua labuta e os patrões em seu Negócio. Os trabalhadores contando as horas e os minutos para se livrarem de seus grilhões fabris ou serviçais. E os patrões contando as horas para deduzirem seus lucros.
Houve também aqueles que tentaram mudar esse negócio de Negócio, instituindo uma sociedade sem explorados nem exploradores. Mas essa é uma outra história...
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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