sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Jabuti e os desassistidos

O Prêmio Jabuti de Literatura foi criado em 1959, pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e desde então oferece anualmente premiações a pessoas envolvidas na produção de um livro. O nome Jabuti foi escolhido por sua representação simbólica nacional e folclórica, além de ser um dos personagens marcantes no mundo infantil de Monteiro Lobato. Pois “o pequeno quelônio, já familiar no imaginário das culturas indígenas tupi, ganhou vida e personalidade nas fabulações do autor das ‘Reinações de Narizinho’, como uma tartaruga vagarosa, mas obstinada e esperta, cheia de truques para vencer obstáculos, para enganar concorrentes mais bem dotados e chegar na frente ao fim da jornada.” ( acessado em 5/11/10)

Pois bem, na noite da última quinta, 4, na Sala São Paulo (ao lado da estação terminal de trem Júlio Prestes da CPTM), foram anunciados os vencedores que faltavam do Prêmio Jabuti. "Leite Derramado", romance de Chico Buarque, ganhou o prêmio de Livro do Ano de Ficção (a obra também venceu no voto popular). E "O Tempo e o Cão", da psicanalista Maria Rita Kehl, foi eleito o melhor livro de não ficção pelo júri. Também foram premiados os vencedores das 21 categorias da 52ª edição do Jabuti, anunciados em 1º/10.

Ainda não li “Leite Derramado”, mas li os romances anteriores de Chico: “Estorvo” e “Budapeste”. É possível perceber que a cada romance, o autor aprimora mais seu estilo: introspectivo, psicológico, invasivo, repleto de sobreposição de planos narrativos, irônico, misterioso.

Já Maria Rita Kehl foi parte de meus estudos no curso de Jornalismo. Uma das últimas freudianas ativas, ela aprofunda, em “O Tempo e o Cão”, o estudo da atualidade das depressões. Um dos conceitos que ela analisa é a temporalidade como articulador entre o plano social e individual da depressão. “O título “O Tempo e o Cão” alude à velocidade da vida no capitalismo avançado e aos valores que são atropelados – representados pela figura do cão que atravessa, desavisado, a estrada em que trafegamos em alta velocidade. No evento real, não foi possível a Maria Rita parar o carro. O livro representa a pausa necessária para pensar este acontecimento: o tempo para a experiência” ( acessado em 5/11/10).

Tanto Chico quanto Maria Rita declararam, na reta final do 2º turno, apoio a Dilma para presidente. Ambos apostaram e acreditam, assim como 56 milhões de brasileiros, que a petista pode reverter a situação de miséria e pobreza que ainda existe em nosso País.

Aliás, uma parcela dessa miséria estava escancarada a poucos metros do local da premiação do Jabuti. Ali mesmo, na Praça Júlio Prestes, no gramado, na calçada, centenas de esfarrapados, drogados, loucos, desocupados, ambulantes sem destino, desesperançados, perambulando ou simplesmente ficando adormecidos, inertes num mundo inimaginável. Observados atentamente por policiais de uma base móvel, eles não compartilham (e não sei se compartilharão um dia) do prazer da leitura de um livro. Eles, muitas vezes personagens de crônicas, contos e romances. Ou objetos de análises sociológicas, antropológicas e psicológicas, não possuem motivos para comemorar. Talvez apenas o que lhes sobrou da vida: a lembrança de ser um ser humano.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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