sábado, 20 de novembro de 2010

A elite e os miseráveis

Um jornalista da TV Globo de Florianópolis fez nessa semana um infeliz e preconceituoso comentário (confira no youtube.com, digitar: "qualquer miserável agora tem um carro"). O assunto do Jornal do Almoço, no dia 15 de novembro, era sobre os acidentes nas estradas durante o fim de semana prolongado. O apresentador Luiz Carlos Prates começa assim: “As pessoas saem desatinadas com uma pressa que não se justifica por nenhuma razão”. Em seguida, ele descreve sua viagem pela BR 101 e tenta explicar o motivo de haver tanto movimento nas estradas: “Antes de mais nada é a popularização do automóvel”. E emenda: “Hoje qualquer miserável tem um carro”. Após a pérola, Prates passa a desferir tantos golpes contra a classe pobre (ou seria agora classe média em ascensão?) que deixa no chinelo o personagem Caco Antibes (interpretado por Falabella, em “Sai de Baixo”).

Diz o jornalista: “O sujeito jamais lê um livro. Mora apertado numa gaiola que hoje chamam de apartamento. Não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele (sic), saem, vão para a estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Ao final, ele lista entre os motivos de haver acidentes nas estradas a “popularização do automóvel, resultado desse governo espúrio que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.

Entre outras acepções, “espúrio” significa “ilegal”, “desonesto”, “ilegítimo”. O jornalista num rompante de tagarelice ou verborragia acusa, dessa forma, o governo Lula de ser ilegítimo ao propiciar às famílias brasileiras a aquisição de um automóvel. Daí é possível deduzir que somente a elite é que tem o direito de usufruir um bem como este. Um rico com seis carros na garagem de sua mansão parece não incomodar o infeliz apresentador de telejornal. Mas um carro comprado com o suorzinho do peão seria o que então? Fruto de roubo? Apropriação indébita? Lamentável...

Entendo que o conceito de felicidade não deveria ser medido de acordo com o que se acumula de bens, mas sim o quanto de bem que fazemos (ou deveríamos fazer) às pessoas. Obviamente que numa sociedade de consumo todos são impelidos a consumir, estar bem é compreendido como “ter”. E, na lógica da produção capitalista, o que vemos é a indústria da destruição, pois os produtos duram cada vez menos e são fabricados cada vez mais, sempre com novos e mais implementados modelos.

Há ainda quem critique, de forma distorcida e mal compreendida, a necessidade de se haver um controle social da mídia...

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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