sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E agora, capitão Nascimento?

Sempre houve um clima de violência nas favelas do Rio de Janeiro. Agora com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em algumas comunidades, assistimos a reação dos traficantes que são forçados a migrar de favela e se reorganizarem para manter suas operações.

O tráfico de drogas é uma atividade comercial ilegal e é a principal fonte de renda desses criminosos. O dinheiro pago num papelote de cocaína ou numa trouxinha de maconha é o que financia desde a compra de armas até a propina paga a agentes corruptos do governo que fazem vistas grossas ao crime.

Quando as vendas de drogas caem, o sistema criminoso entra em crise. Como pagar o pessoal que dá “cobertura” para as operações de buscar, refinar e distribuir as drogas? Até que ponto o “trabalho” dos traficantes é voluntário ou ideológico?

Pois não é. Tudo gira em torno do dinheiro. Por isso, não se pode dizer que o que assistimos nos últimos dias são atos terroristas. São, antes, atos criminosos. O terrorismo, na literatura internacional, pressupõe a disputa e a tomada de poder do Estado. Trata-se de grupo político armado que tem como objetivo derrubar o governo. Para isso, procuram desestabilizá-lo por meio de ataques contundentes a prédios públicos ou símbolos do poder local. Alguns desses grupos são: IRA (Exército Republicano Irlandês), na Irlanda; ETA (Pátria Basca e Liberdade), na Espanha; FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia); Al Qaeda, Hamas, Al Jihad, Hizbollah e GIA (Grupo Islâmico Armado), no Oriente Médio.

Portanto, o que define um grupo terrorista é o seu objetivo final, a sua causa.

A causa dos traficantes ou de qualquer bandido, como os de colarinho branco, que se escondem atrás de mesas e imperam no aparelho de Estado, é a mesma. Lucrar. Ganhar dinheiro.

As operações do governo estadual do Rio de Janeiro possuem também um objetivo final e um estratégico. O objetivo final é passar a imagem de um Rio de Janeiro seguro. Ou seja, aumentar a sensação de segurança para que a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 transcorram na mais perfeita ordem. O objetivo estratégico é a ocupação das favelas, aproximando polícia e governo dos moradores, recuperando a confiança da comunidade.

Em “Tropa de Elite II” (de José Padilha), o capitão Nascimento paga um preço alto por enfrentar o “sistema”, principalmente o criado pelas milícias (grupos de policiais corruptos que “vendem” proteção à comunidade). Na vida real, esperamos que os capitães Nascimentos e toda a operação do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) não se tornem meros fantoches nas mãos de burocratas inescrupulosos, que pensam apenas em seus ganhos políticos.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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