sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A verdade das urnas

“A primeira vítima quando começa a guerra é a verdade”. A frase é do senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917. Ele criticava a cobertura dos jornais norte-americanos sobre a Primeira Guerra Mundial, em que os Estados Unidos nem entraram. Hoje em dia, se considerarmos uma disputa eleitoral como uma guerra, temos então a primeira vítima. A diferença é que a morte da verdade depende de decisões subjacentes daqueles que promovem seus respectivos candidatos. Como em tempos modernos, uma campanha eleitoral se tornou uma mescla de política e propaganda, há conceitos e procedimentos padronizados para atingir esse ou aquele objetivo. Assim, lançar um ataque ao adversário passa ser não só uma decisão política, mas uma estratégia de marketing. Se existe meia-verdade também pode existir meia-mentira. E quem conta só parte da verdade está sendo, por extensão, meio-mentiroso. Portanto, a omissão ou o silêncio também se tornaram partes de estratégias de campanha.

Por exemplo, Serra e sua esposa Mônica se calaram diante da revelação feita por uma ex-aluna de dança da tucana, na qual esta assumira ter realizado um aborto. O assunto é incômodo, mas quem inaugurou o tema foi a campanha tucana.

Todos sabem do perfil privatista do governo FHC, como a Vale do Rio Doce e a Light, ambas eram públicas produtivas e foram vendidas com preço muito abaixo do que realmente valiam, e ainda com financiamento público a perder de vista.

No governo paulista, o então governador Serra chegou a avaliar 18 empresas públicas para fins de privatização, entre elas o banco Nossa Caixa, a Sabesp, o Metrô, CPTM, a Dersa e a CDHU. E a Nossa Caixa, na verdade, escapou por pouco. Chegou a ser leiloada e foi arrematada pelo Banco do Brasil, num esforço do Governo Federal para impedir que a instituição fosse parar nas mãos de empresas privadas.

Agora, a campanha tucana, a poucos dias da decisão do segundo turno, tenta impingir a pecha de privatista ao governo Lula.

De outro lado, vemos o presidente Lula comemorando com petroleiros a descoberta de mais uma bacia de petróleo. Vemos também todos os institutos de pesquisa apontando uma vantagem de pelo menos 12 pontos de Dilma sobre Serra. Vimos como Serra atacou as pesquisas (Vox Populi, Ibope, Datafolha e Sensus) e utilizou em seu programa eleitoral dados de institutos pouco conhecidos (Veritás e GPP) para dizer que está empatado tecnicamente.

Chegamos ao limite. As cartas todas foram lançadas. A população parece não ter mais dúvidas. Ela decidirá sobre dois projetos (e não necessariamente sobre dois adversários): um representa a continuidade do governo Lula, com sua forma de pensar políticas públicas, de priorizar os investimentos e de se relacionar com a sociedade. O outro representa a volta à era FHC, de perfil privatista, neoliberal e conservador, com propostas demagógicas e desesperadas.

A única certeza que temos é que nesse jogo, a população não é mera expectadora. Agora é ela quem dá as cartas e é dela a palavra final. A guerra pode inicialmente matar a verdade. Mas, uma coisa é certa, numa democracia todos temos que aceitar a verdade das urnas. Pois vamos e elas!

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

0 comentários: