sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Coisas da vida



“Ser o que serve e é servido
Só o amor é tão bonito
Ser o que planta e sentar à mesa
Amor é dom da natureza
Água que limpa e mata a nossa sede
Sede de viver
De deixar viver
De fazer viver
E de ser feliz”

(Milton Nascimento)


Não existe fórmula mágica nem “professor cem por cento” que dê conta da melhor forma de se ensinar os alunos. Em nossas vidas, por maiores que sejam as diferenças entre as pessoas, aprendemos praticamente as mesmas coisas. A questão é que ensinamos ou aprendemos por meios diferentes. E parte daquilo que determina a aprendizagem depende também do envolvimento e do interesse do aluno. Ora, se não estivermos dispostos a aprender algo novo, de nada valerão milhares de cartilhas, estratégias e propaganda oficial do governo.

Estar aberto a coisas novas é condição sine qua non para a aprendizagem. E coisas novas são as coisas da vida, como a amizade, o trabalho, a saúde, o lazer, o amor. São essas coisas que permeiam as relações sociais, que expõem a condição humana e que por analogia nos levam a questionar o real sentido e o real valor de nossas ações.

E quando penso que a insensibilidade e a indiferença estão avançando no terreno das sensações humanas (dada a enxurrada de notícias ruins e experiências de violência que nos cerca), eis que me deparo com uma cena no mínimo inusitada. Explico: toda vez que anuncio aos alunos que veremos um filme para enriquecer a aula com um debate ou uma análise, algum aluno pergunta se é filme de ação. Respondo sempre que será um filme que nos levará a algumas reflexões. E alguns torcem o nariz, pois preferem tiros, perseguição, sangue e morte.

Pois bem, nessa semana decidi exibir “Crianças invisíveis” (2005), dirigido por cineastas de sete países. São sete histórias curtas que mostram que “crianças são crianças e mantêm uma inabalável disposição para sonhar e resistir, por mais que as condições em torno delas sejam tantas vezes quase insuportáveis” (Neusa Barbosa, do Cineweb). O combinado era que a cada conclusão de uma das sete histórias, faríamos uma pausa para comentários. O primeiro curta mostrava meninos soldados num país não identificado da África e o sonho de um deles, “Tanza”, em ter sua infância roubada de volta. Depois, “João e Bilu”, duas crianças que catam papelão e latinha pelas ruas de São Paulo. Por fim, assistimos “Song Song e Gatinha”, um curta dirigido por John Woo, que apresenta o contraste entre duas meninas chinesas, uma rica e outra pobre, e como o contato entre elas pode mudar o destino das pessoas.

Ao fim do filme e ao acender das luzes percebi que não haveria comentários. A turma (uma 3ª série do Ensino Médio) estava literalmente tomada por lágrimas. Alguns até queriam se pronunciar, mas a voz embargada não deixava. Dispensei-os da tarefa difícil. Creio que o filme cumprira sua missão. Tocar as pessoas, fazendo-as enxergar a criança invisível que existe dentro de cada um e valorizar todas as outras crianças. Afinal, elas compõem as coisas da vida e nos puxam, sempre que necessário, para a auto-reflexão. Da sede de viver e deixar viver. De fazer viver e ser feliz.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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