A reta final da campanha para presidente ganha tons dramáticos. E quando digo “drama” é no sentido do teatro e do texto dramático. Segundo Aristóteles, em “Poética”, o termo drama (do grego “drân”: agir) refere-se aos textos produzidos para serem representados. Há quem diga que o teatro é a arte de mentir e que ela só funciona porque o público concorda em aceitar aquela representação como verdade. Ou seja, para o teatro aconteça é preciso que haja uma convenção, um acordo, entre plateia e atores.
Mas, cá entre nós, uma campanha eleitoral que tem em jogo o destino do País para os próximos quatro anos não pode se tornar um teatro como vimos nessa semana. Agressões verbais e objetos atirados fazem parte de protestos que considero prejudiciais em qualquer época. Agora, usar de um episódio assim para fazer papel de coitado, é brincar com o sentimento do povo.
Quando o presidente Lula diz que o que assistiu foi uma montagem produzida pela equipe de marqueteiros do candidato tucano apresentando-o como vítima, concordo plenamente. Também vi e pesquisei a respeito. Os sindicalistas com cartazes criticando a atuação de Serra no Rio (quando este foi ministro da Saúde e exterminou os agentes de combate a dengue), protestavam com razão. Associá-los à campanha do PT parece ser a melhor explicação (tucana) para criar o tempero apimentado da “briga generalizada” entre petistas e tucanos, desconsiderando, é claro, que os seguranças de Serra “abriam” caminho na multidão utilizando de toda sua “sutileza elefantística” (termo emprestado do camarada Paulo Skromov).
O teatro, todavia, não para por aí. A montagem tupiniquim ganha ares de superprodução. Não se contentam com o Maria Della Costa, querem a Broadway. Só que o gênero tragicômico estaria mais para um grande pastelão. Em tempos de rusgas e tensão, até que funciona bem para umas boas gargalhadas...
Repito, ofensas e agressões não levam a nada. Só depõem contra a democracia. Mas, fazer uso eleitoral de um episódio isolado e mal contado é pior ainda...
Nessa semana, quando foi divulgada a pesquisa Vox Populi (Dilma com 51% e Serra com 39% das intenções de voto), o presidente do PSDB, Sergio Guerra, convocou uma coletiva de imprensa e não poupou críticas ao instituto, dizendo que era uma empresa ligada ao PT etc-e-tal e não merecia credibilidade... No dia seguinte, sai a pesquisa Ibope (Estadão/TV Globo): Dilma 51% e Serra 40%. Depois o Datafolha: Dilma 50% e Serra 40%. E o PSDB calou-se.
Creio que nessa última semana de campanha, os tucanos desesperados subirão o tom (e descerão o nível) num ritmo intenso e alucinado. Usarão todas as armas disponíveis (e não disponíveis), com um exemplar de “O Príncipe” sob a axila direita.
Dilma tem a seu favor os votos do primeiro turno e o apoio declarado de setores formadores de opinião: sindicatos, movimentos populares, ativistas católicos e evangélicos, ambientalistas, parlamentares e dirigentes do PV e a popularidade do presidente Lula, com 82% de aprovação (o maior índice Datafolha desde 1985).
Serra tem bolinhas de papel e nenhuma proposta exequível. Talvez algumas, só que bem demagógicas: aumentar o salário mínimo a 600 reais e pagar o 13º do Bolsa Família.
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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