
O misterioso e cativante Pequeno Príncipe surge e desaparece, deixando uma marca indelével em quem teve o prazer de conhecê-lo. Assim como Antoine de Saint-Exupéry, seu criador (ou seria ele interlocutor num encontro inusitado durante uma semana em que ficou perdido no deserto do Saara?), piloto e escritor francês, que após publicar sua obra-prima, saiu para voar e também desapareceu misteriosamente em 1944.
Saint-Exupéry, meio cansado da hipocrisia do mundo adulto e do jogo das aparências, da ostentação e da ambição, deixou para nós uma das mais importantes heranças. A leitura de “O Pequeno Príncipe”, com a sua simplicidade narrativa, sua poesia dedutiva, sua visão desembaraçada do racionalismo moderno, mas com alguma preocupação típica da infância, contribui para que abramos a mente, exercitemos a imaginação e aprendamos um pouquinho sobre o mundo psicológico das crianças.
Não se trata de analisar, classificar e explicar as fases do desenvolvimento infantil ou a construção do conhecimento, sua cognição e todo o construtivismo que permeia nossas salas de aula, com suas lousas, gizes e apagadores. Trata-se apenas de deixar que os pequeninos falem e sonhem em seu próprio espaço, e também dividam esses sonhos conosco.
O Pequeno Príncipe veio ao planeta Terra porque estava curioso em conhecer um lugar tão grande, já que a sua casa, o asteróide B 612, não é maior do que um quintal. Mas, lá, há espaço suficiente para que ele admire o pôr-do-sol quantas vezes quiser, bastando para isso recuar a cadeira (certa vez, ele viu 43 pores-do-sol num mesmo dia). Ou que ele contemple as estrelas, cultive sua rosa e mantenha sob controle seus três vulcõezinhos (dois ativos e um extinto).
E creio que a amizade, bem como o significado de “cativar”, que ele aprendeu com uma raposa, representa para o Pequeno Príncipe a principal lição humana em um ano perambulando pelo nosso planeta.
O risco de ser cativado é o sofrimento que advém da perda de quem nos cativa. Só sabemos do verdadeiro valor da amizade quando a perdemos. Uma rosa no jardim é apenas uma rosa como outras tantas milhares de rosas. Mas quando vivenciamos uma rosa associada a uma frase dita por alguém, com sua risada, choro, amor, gesto, pensamento, aí temos uma rosa única em todo universo.
As coisas só são únicas quando têm para nós um significado especial. E isso é algo que só se aprende ou se enxerga com o coração, pois “o essencial é invisível aos olhos”.
Assim, caro leitor e leitora, reli “O Pequeno Príncipe” após mais de vinte anos da primeira leitura. A história, a personagem e o autor são cativantes, e serão sempre atuais. Afinal, quem discordaria de uma outra lição que o nosso Pequeno Príncipe aprendeu com um rei sem súditos em sua viagem cósmica: “é bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros”?
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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