
De que valem toda a literatura e todo o conhecimento humano acumulado (científico, filosófico, cultural, empírico ou metafísico) se não os usamos para nossas vidas? Por outro lado, esse dilema de valorizar apenas aquilo que nos parece útil ou interessante muitas vezes nos torna arrogantes e convencidos, porque desprezamos o conhecimento dos outros. Então, por onde caminhar?
Bem, outro dia, numa reunião de professores, lemos um texto sobre o bambu. Ele é alto e fica bem firme no chão. Mas quando sopra o vento, ele se enverga, rendendo-se à força da natureza. Se resistisse, partir-se-ia como os galhos das árvores. E mais. O bambu pode se envergar até o chão, sem se quebrar, formando um imenso arco e depois voltando à sua forma original. Ora, devemos ser como bambus: firmes em nossas posições, mas humildes e abertos a novos conhecimentos ou para assumirmos nossos próprios erros.
Uma lição puxa outra e eu me lembrei da “teoria da curvatura da vara”, defendida pelo professor Dermeval Saviani, desde a década de 80. Trata-se da tendência pedagógica histórico-crítica, inspirada em Lênin (líder da Revolução Russa, de 1917), em que o processo de tentativa de ajustes da educação acontece do seguinte modo: “quando a vara está torta, ela fica curva de um lado e se você quiser endireitá-la, não basta colocá-la na posição correta. É preciso curvá-la para o lado oposto” (1992). Desse modo quando mais se falou em democracia no interior da escola, menos democrática foi a escola e, quando menos se falou em democracia, mais a escola teve articulada com a construção de uma ordem democrática.
Para a formulação de uma nova teoria pedagógica, Saviani entende que os conteúdos escolares devem ser tratados como uma necessidade pessoal e social de modo que depois de serem aprendidos possam ser instrumentos de mudanças sociais, devendo ser incorporados dentro de uma totalidade. Creio que assim se valoriza o que se aprende porque o conteúdo passaria a fazer sentido.
Os cinco passos para trabalhar essa tendência compreendem a valorização da bagagem cultural que professor e aluno levam para a escola; a problematização a partir de questões a serem resolvidas no âmbito da prática social, o que determina o que se deve aprender; a apropriação das ferramentas culturais necessárias pelas camadas populares para realizar a luta social que travam para se libertar das condições de explorados; a “catarse” (incorporação dos instrumentos culturais), transformando agora em elementos ativos de transformação social; e, por fim, a prática social final, sendo a nova postura que o educando deve assumir perante a sociedade.
Assim, a humildade (representada pelo bambu), que nos ensina a pedir perdão e a perdoar, combinada com a transformação social pela educação (teoria da curvatura da vara), permite-nos uma atuação de forma mais autêntica e com objetivos mais claros, tanto no trabalho como em nossas vidas.
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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