sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ó o auê aí ô!

Recebi outro dia uma mensagem eletrônica de um colega jornalista de Jandira, o Paulo Mack, contendo uma lista enorme de termos que eram usados no passado e se modificaram nos dias de hoje. A intenção clara da mensagem é fazer rir, e conseguiu. Mas também serve para que façamos uma reflexão sobre a significação e a ressignificação que causamos na nossa Língua Portuguesa.

Assim, o que antes era um simples “obrigado”, hoje diz-se “valeu”. Os “bailinhos” e a “discoteca” viraram “balada”. O que antes acontecia “nos bastidores” de uma filmagem, hoje é “making off”. “Programa de entrevistas”, agora é “talk-show”. O que era “cafona”, se tornou “brega”. Os intervalos comerciais, chamados de “reclames”, hoje são “propagandas”.

O nosso “cansaço” virou “estresse” e parece acometer muito mais gente que antes. Para pedirmos “desculpas”, dizemos “foi mal” e está tudo perdoado (ou quase). A molecada quando ia sair para algum lugar dizia: “Mamãe, posso ir?”. Hoje: “Veiaaa, fui!!!”. Ao encontrar os colegas: “Oi, olá, como vai? Tudo bem?”. E hoje: “E aê? Belê?”...

As gírias dos anos 60 e 70 também se renderam à modernidade. No lugar de “legal” ou “bacana”, temos “manero” ou “irado”. Os “brotinhos” viraram “minas”. Os “coroas” agora são “véi”. “Flertar”, “paquerar” virou “dar mole”.

Na onda da tecnologia, “radinho de pilha” (você conhece alguém que ainda tenha um?) agora é “i-pod”. O “Computador”, grande e pesado, abre espaço para o pequeno e leve “notebook”. O “bolachão” (ou disco vinil) que regava os ouvidos nos bailinhos na casa dos amigos deram lugar para os “Compact Disks” (CDs) e as “faixas” (ou músicas do vinil) agora são “mp3” ou “wave” (entre outros formatos).

De qualquer forma, a vida continua a mesma: a correria do dia a dia, atrás do pão nosso. Madrugar para pegar no batente, dar um trampo, estar na labuta, garantir uns trocos ou o leite das crianças, fazer um bico ou fazer um corre. Dedicar-se a uma profissão, estudar, aperfeiçoar-se (ou qualificar-se para atender a demanda do mercado de trabalho). Resumindo: ficar ligado no movimento, não perder o bonde...

A linguagem pode se modificar à vontade, mas o significado que ela traz, a intenção comunicativa continua a mesma. Se “mulher de vida fácil” é hoje “garota de programa”, o que importa é que ela continua vendendo seu corpo por dinheiro. Os cursos “primário”, “ginásio” e "colegial" trocaram de nomes para ensinos “fundamental I”, "fundamental II" e “médio” e, sob o governo dos tucanos, continuam ruins do mesmo jeito.

Na esteira das coisas que mudam de nome e carregam a mesma intenção, não podemos deixar escapar a velha Arena (partido da Aliança Renovadora Nacional), criada pela Ditadura Militar (1964-1985) para sustentar a política retrógrada e conservadora das elites brasileiras, e que hoje (passando por diversas denominações) pode ser encontrada no DEM (partido Democratas). O que a coligação de Serra (PSDB-DEM) tenta passar por “novo”, com seu candidato a vice-presidente, é na verdade o que existe de mais atrasado na política brasileira.

Assim, a nossa listinha (veja a versão completa no blog Sopa Primordial) poderia se despedir com uma mensagem direcionada para os candidatos que usam a tática do medo (www.istoe.com.br). Em 1964, a “ameaça comunista” serviu de pretexto para um golpe militar. Hoje, acusam o PT de estar ligado “ao que há de pior”. Sinceramente: “Olha o barulho!”, ou seja, “Ó o auê aí ô!”.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor


As mudanças dos anos 60/70/80 para os dias de hoje

Antes era: Agora é:
- creme rinse: condicionador
- obrigado: valeu
- é complicado: é foda
- collant: body
- rouge: blush
- ancião e coroa: véi
- bailinho e discoteca: balada
- japona: jaqueta
- nos bastidores: making off
- cafona: brega
- programa de entrevistas: talk-show
- reclame: propaganda
- calça cocota: calça cintura baixa
- flertar, paquerar: dar mole
- oi, olá, como vai?: e aê?
- cópia, imitação: genérico
- curtir, zoar: causar
- mamãe, posso ir?: veiaaaa, fui!!!
- legal, bacana: manero, irado
- mulher de vida fácil: garota de programa
- legal o negócio: chapado o bagúio
- pasta de dente: creme dental
- cansaço: estresse
- desculpe: foi mal
- oi, tudo bem?: e aê, belê?
- ficou chateada: ficou bolada
- médico de senhoras: ginéco
- superlegal: irado
- primário e ginásio: ensino fundamental
- preste atenção!: se liga!
- por favor: quebra essa
- recreio: intervalo
- radinho de pilhas: ipod
- manequim: modelo e atriz
- retrato: foto
- jardineira: macacão
- mentira: kaô
- saquei: tô ligado
- entendeu?: copiou?
- gafe: mico
- fofoca, ti-ti-ti: babado
- ha ha ha: uhauhauhauha
- fotocópia: xerox
- brilho labial: gloss
- bola ao cesto: basquete
- folhinha: calendário
- empregada doméstica: secretária
- faxineira: diarista
- vou verificar: vou estar verificando
- madureza: supletivo
- vidro fumê: insulfilm
- posso te ligar?: posso te add?
- tingir uma roupa: customizar
- dar no pé, ir embora: vazar
- embrulho: pacote
- lycra: stretch
- tristeza: deprê
- beque: zagueiro
- rádio patrulha: viatura
- atlético: sarado
- peituda: siliconada
- professor de ginástica: personal
- quadro negro: board
- babosa: aloe vera
- lepra: hanseníase
- Ave Maria!!!: Afffff!!
- caramba: caraca
- namoro: pegação
- laquê: spray
- de montão: pracarai!
- derrame: AVC
- chapa dos pulmões: raio-x
- sua bênção, papai: "qualé", coroa?
- você tem certeza?: ah! fala sério!
- banha: gordura localizada
- alisamento: chapinha
- buteco no fim do expediente: happy hour
- costureira: estilista
- negro: afro-descendente
- professora: tia, profe
- senhor: tiozinho
- bunduda: popozuda!
- amorrrrrrr!: benhhêêêêê!
- desculpe, mas esta questão que
você me submeteu é impossível
de cumprir!: nem fudendo!
- olha o barulho!: ó o auê aí ô!

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