Poderia escrever sobre diferentes cenas do cotidiano acumuladas em duas semanas de recesso. Poderia falar sobre fatos curiosos e engraçados, como a jovem que ganhou um urso de pelúcia gigante (ou ela é que não era tão grande) e ao retornar do litoral para São Paulo teria que pagar duas passagens de ônibus. Para não pagar a passagem do urso e não prolongar a discussão com o motorista, o bichinho (ou bichão) teve que viajar em seu colo. Poderia abordar a recente desistência forçada da candidatura de Ciro Gomes à presidência da República e as suas infelizes e infundadas declarações de que Serra seria melhor do que Dilma. Poderia também falar da minha própria saúde que sofreu um revés diante de um cálculo renal e a dor insuportável causada por ele, levando a uma intervenção cirúrgica e ao afastamento do trabalho. Cheguei a rascunhar várias linhas sobre esses assuntos, mas como a efemeridade é uma das características da crônica – e um dia basta para envelhecer – preferi escrever sobre a poesia da vida.
Obviamente, muitos não enxergam a poesia da vida, pois ela está repleta e dominada pela prosa sisuda do dia a dia. Embora haja tantas repetições e paralelismos, essa prosa não carrega rimas sejam elas pobres, ricas ou internas. O lirismo não existe. O que existe são as frases curtas de uma fala utilitária, como no cartaz dentro do ônibus: “Fale somente o necessário com o motorista”. E a regra se aplica a tudo e a todos. Falar somente o necessário no guichê do banco, na consulta médica, na compra de um produto, na fila do supermercado.
O vazio ou a insuficiência de palavras se torna uma triste regra em que uma sociedade letrada deixa escapar a oportunidade de ser poética para se tornar prosaica fática ou metalinguística. Fática porque se atem a verificar se sua lacônica intervenção comunicativa está sendo eficiente. E para por aí. A metalingüística porque se limita a explicar o significado da sua própria fala, para economizar o tão precioso tempo. Assim, a linguagem conotativa, figurada, cede à linguagem denotativa, para que não haja nenhuma dúvida, ambiguidade, duplo sentido.
O mais grave, entretanto, não é a ausência de poesia nas situações comunicativas. É o fato de não se enxergar a poesia presente nas cenas do cotidiano. A falta de sensibilidade para ver a realidade com outros olhos. Perceber nas pequenas coisas, gestos, atitudes, ações, a intenção do ser humano expressando aquilo que é sua principal característica: SER humano.
Assim, a prosa das notícias sanguinolentas embrutece corações. A prosa do utilitarismo transforma um bom bate-papo em rotina familiar e social. A prosa da opinião coloca pingos nos “ii”, mas se esquece dos “jj”. A prosa da propaganda transforma as pessoas sem dinheiro em consumidores frustrados.
E a poesia da vida, tão cara a cada um de nós, fica na penumbra à espera de uma espiadela. À espera de que retiremos dali algumas lascas e que nos demos conta da sua riqueza de tesouro escondido, que só é rico por estar escondido. Mas que quando descoberto propicia um deleite ao seu descobridor porque pode compartilhar a sua descoberta com toda a Humanidade.
Elioenai Piovezan
Jornalista e professor
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