sexta-feira, 5 de março de 2010

O quente, o morno e o frio

A ideia de “quente”, “morno” e “frio”, que aparece no livro do Apocalipse (“Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”, versículo 3:16), respeitando-se obviamente a interpretação bíblica sobre o comportamento do crente em Deus, pode ser aplicada perfeitamente no plano político brasileiro.

As ações efetivas que pertencem a um programa de governo, apresentado à população durante a campanha eleitoral e posteriormente executado em sua plenitude (ou quase) é aquilo a que podemos chamar de “quente”. Pois, quando vemos um governo cumprindo promessas e atuando para o bem da maioria, há um sentimento de satisfação (e até de alívio). Isso ocorre, por exemplo, com o presidente Lula, que atinge 73% de aprovação de seu governo.

Ações que revelam um governo “quente” são as que não geram polêmica porque beneficiam a maioria. Ora, quem pode contestar programas e ações como o Bolsa Família? O Luz para Todos? O ProUni? O Minha Casa Minha Vida? O PAC? A redução do IPI? O Piso Nacional dos Professores?

Já o tipo “frio” de governo é aquele que não prometeu nada e por isso mesmo não tem por que prestar contas. É um governo distante e assumidamente anti-progressista. Mas, pelo menos, é transparente na sua forma conservadora e nefasta de fazer política.

Mas, o pior tipo é o governo “morno”, que posa de democrático, progressista e na prática oprime a população com ações controversas, impopulares ou que beneficiam apenas uma minoria. É o caso do governo do Estado de São Paulo. Ou você concorda com a instalação de pedágios no Rodoanel e na rodovia Castello Branco? O que dizer da propaganda enganosa sobre dois professores por sala de aula, professores contentes com bônus e com a prova de mérito, que supostamente dobraria o salário de todos? Escolas equipadas com laboratório de informática?

O governo tucano parece até gostar de polêmica e de confronto, principalmente com os funcionários públicos. Os ataques e o desrespeito à Educação são claros e, infelizmente, levam diversas categorias (professores, funcionários, diretores e supervisores) a optarem pela greve como forma de manifestação.

Talvez fruto do desespero por não ver emplacar sua (pré)candidatura a presidente, o governador Serra envia projeto de lei absurdo para os deputados aprovarem. É o caso da gratificação GAM (Gratificação por Atividade do Magistério) que se pretende incorporar ao salário em três parcelas (2010, 2011 e 2012). O problema do governo paulista, ou melhor, o perfil do governo paulista é o de não negociar com a categoria. Ele não respeita a data-base (março) e baixa medidas que irritam e desanimam os profissionais da Educação, entre outros.

Infelizmente, o “morno” predomina em nosso estado. A relação entre professores e governo é nauseante. Comprove a veracidade da propaganda oficial: visite uma das escolas estaduais e converse com os professores e funcionários. Com certeza, você optará por ser um cidadão “quente”, crítico e exigente de ações sérias, justas e que beneficiem a maioria.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

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