sábado, 28 de janeiro de 2012

Acontecimentos

Muitas coisas aconteceram nos últimos meses. Infelizmente, parte da grande mídia destaca apenas as tragédias (coletivas ou individuais), explorando ao máximo a emoção do telespectador. A repetição incansável de cenas de assaltos, agressões, colisões, entre outros, já ganhou as manhãs e os finais de tardes dos brasileiros. Pra piorar a situação, ainda é preciso conviver com a opinião de comentaristas conservadores, que não perdem a oportunidade de atacar os movimentos sociais organizados ou o governo Dilma.

Caso gritante foi a operação de reintegração de posse do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, nesta semana, que contou com a participação de 2 mil policiais militares, muita bala de borracha e bomba de efeito moral. Pra quem não sabe, a PM considera esse tipo de armamento "não letal" (desde que não atinja um olho ou mate alguém do coração). De outro lado, cerca de 9 mil pessoas que ocupavam o local há 8 anos, ou seja, homens, mulheres e crianças. O terreno pertence à empresa Selecta, do megaespeculador Naji Nahas (aquele mesmo que foi preso pela Polícia Federal em 2008 na operação conhecida como Satiagraha). Segundo o deputado federal Delegado Protógenes Queiroz (PCdoB), autor da operação que prendeu Nahas, a desocupação do Pinheirinho foi um verdadeiro massacre. Ele também suspeita de motivações obscuras do governo do estado de São Paulo em optar pela ação de despejo e não de encontrar outra solução para o caso.

Ora, as famílias já estavam estabelecidas, com casas de alvenaria, comércio, igrejas, associações. Uma saída pacífica, negociada, deveria passar pela desapropriação da área, com indenização (ainda que o dono seja um Naji Nahas da vida) e a oficialização do bairro. Bem que o governo federal tentou intervir, mas Geraldo Alckmin, misteriosamente, não quis. Preferiu se esconder nas barras da saia da Justiça. Sua PM e a Guarda Municipal local protagonizaram então no domingo, 22 de janeiro, cenas deploráveis de ataque a pessoas indefesas, sem poupar crianças e idosos.

A função social da terra deveria ser mais do que simples letras (mortas?) escritas na Constituição Federal. E as autoridades, tanto o Judiciário quanto o Executivo, poderiam ser mais sensíveis e políticos do que meramente técnicos. A frieza (e alguns interesses inexplicáveis) parece ter vencido por ora os assustados e injustiçados moradores do Pinheirinho. Em algum alojamento improvisado, mais exatamente no banheiro de um ginásio de esportes, um pai de família tampou os vasos sanitários para diminuir o mau cheiro e oferecer um pouco de dignidade a sua mulher e filhos. Ele talvez esteja pensando neste momento que o sol não nasceu para todos, mas apenas para os "espertos".

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Bloqueio...

Caro internauta,

Não sei como explicar, mas, às vezes bate aquela indisposição de escrever. Não é preguiça, longe disso. Convenhamos chamá-la de "bloqueio". Acontece até com os melhores escritores. Uma vez li uma entrevista com o cantor (compositor, músico, dramaturgo, poeta, cronista, contista, romancista, futebolista e ex-quase-arquiteto) Chico Buarque, em que ele narra um episódio de gravação de um de seus discos. Com a data marcada para entrar em estúdio, Chico ainda não havia letrado uma música... Anotações perdidas em guardanapos de papel, feitas talvez durante um bate-papo descontraído, ideias perambulando pela cabeça, querendo escapulir, saltar à mesa e... nada. Chico só conseguiria concluir sua música às portas do estúdio... Ele admite que só funcionava sob pressão, com dia e hora marcados, e alguém cobrando.

Esse tal de bloqueio pode pegar qualquer um. Quando eu colaborava com o Jornal da Gente, na coluna Sopa Primordial, deixava para escrever smepre na última hora. Não que faltasse assunto, mas que, confesso, é gostoso escrever sob uma certa pressão. É estimulante, um desafio, a gente sente até uma adrenalina.

Pois bem, meu bloqueio para escrever neste blog tem durado alguns meses. Mas agora, resolvi voltar. Mesmo sem uma pressãozinha, apenas pela necessidade de dividir algumas linhas com as pessoas que eu sei que de vez em quando passam por aqui e, de certa forma, criou-se um vínculo.

Há muitos assuntos anotados, prontos para conhecerem a luz do dia. Prometo: logo, eles virão à tona. Aguarde!

Elioenai Piovezan

domingo, 27 de março de 2011

O peso do nome

A ironia é um dos ingredientes prediletos dos cronistas. E esta aqui não poderia passar em branco. Nesta semana, a população revoltada de Curralinho, que fica na Ilha de Marajó, no Pará, ateou fogo na Câmara Municipal e depredou a prefeitura e as secretarias de Educação e de Saúde. Motivo: os vereadores não abriram processo de cassação contra o prefeito Miguel Pedro Pureza Santa Maria (PSDB). O chefe do Executivo tucano é acusado pela Controladoria-Geral da União (CGU) de não ter comprovado investimentos de quase R$ 10 milhões (repasses para a Educação e Saúde) e há suspeita de desvio do dinheiro enviado pelo governo federal.

Obviamente que a ironia do assunto está no sobrenome do prefeito, que não foi encontrado pela reportagem da Folha de S.Paulo para comentar o assunto. “Pureza”. E pior: “Pureza Santa...”. Sei que todo cidadão deve respeitar as leis e procurar não cometer crimes, mas quem carrega nomes desse tipo não deveria ter uma atenção redobrada?

Outro caso emblemático aconteceu em 1993, quando o então presidente da Câmara Federal, Inocêncio Oliveira (antigo PFL e hoje DEM), tornou-se alvo de um escândalo envolvendo o uso de brocas de perfuração em sua fazenda em Pernambuco. O problema é que as brocas pertenciam a DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca), uma autarquia que devia priorizar o que o nome diz “combater a seca” (outra ironia) e não privilegiar “coronéis”. Na ocasião, a inocência de Inocêncio caiu por terra, mesmo tendo tentado se explicar publicamente.

Em 2003, foi o escândalo do “Mensalinho”, envolvendo o presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcanti (PP) e o empresário Sebastião Buani que afirmara pagar R$ 10 mil mensais para manter seus restaurantes na sede da Câmara. A ironia está no nome do político Gonzaga Patriota (PSB), que teria recebido metade do valor pago para que fosse prorrogada a concessão de um dos restaurantes. “Patriota” pressupõe aquele que ama a sua Pátria e até daria a vida por ela. Mas...

Os nomes carregam um peso. As pessoas públicas carregam uma responsabilidade. A equação gerada aqui só complica a situação de uma pessoa pública envolvida em algum escândalo e que carrega um nome cujo significado o oposto de suas ações. É o peso do nome...

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

sábado, 12 de março de 2011

Acorrentada

O título desta crônica parece remeter a um filme de terror, com excessivos requintes de crueldade e muita tensão no ar. Na verdade, é apenas parte do título de reportagem de um certo telejornal numa pacata manhã de quinta-feira, de 24 de fevereiro de 2011, século XXI, era Cenozóica. O título diz exatamente o seguinte: “Mulher se acorrenta em escola por vagas para os filhos”.

Essa forma de protesto não é novidade. Em 1999, o diretor de uma escola estadual, em Cotia, se acorrentou num dos pilares do pátio até que sua reivindicação à Secretaria Estadual de Educação fosse atendida. Mais tarde, ele ainda faria uma greve de fome, ficando acampado por vários dias em frente à sede da Secretaria, na Praça da República.

No caso da mãe sem vagas para os filhos, o que chama a atenção é a forma como o governo estadual vem tratando os cidadãos e os profissionais de ensino. Inventaram um tal de “sistema” que se tornou a grande desculpa para tudo. “Ah, o sistema não aceitou a matrícula de seu filho...”; “O sistema não aceita nota zero, só de um a dez...”; “O sistema isso, o sistema aquilo...”.

O sistema vem ganhando vida e poder a cada dia. E cada vez mais estamos submetidos a ele.

A pobre mãe apresentou à reportagem daquele telejornal documentos protocolados na Secretaria Estadual de Educação, que ela disse ter conseguido somente após acionar a Polícia Militar (Uau! Ela colocou o Estado contra o Estado). Também apresentou documento emitido pelo Conselho Tutelar do Jaçanã, entre outros.

Bem, funcionou... Após a reportagem, a direção da escola chamou a mãe e garantiu as vagas tão solicitadas. Boca no trombone, rodar a baiana e chutar o pau da barraca muitas vezes funcionam...

A chamada cidadania plena ainda está longe de ser alcançada. Enquanto for preciso tomar medidas extremas para se obter aquilo que é direito do cidadão e dever do Estado, estaremos em transição da pós-barbárie para uma democracia de fato.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O futuro de Itapevi

Por mais que um governo faça pelo seu povo, nunca estará bom. Depois de asfaltar 100% das ruas da cidade (e isso ainda não foi feito em Itapevi), é preciso melhorar a paisagem, incentivar a construção de calçadas (não ameaçando multar o morador) e praças, fiscalizar com mais rigor o lixo e entulhos jogados em pontos sistemáticos (atrás do CEMIP, em terrenos baldios, ao longo de algumas estradas de terra), ser transparente e incentivar a participação dos munícipes nos destinos da cidade (características de governos petistas...).

Tudo bem, a Prefeitura entregou um novo Pronto-Socorro, mas o atendimento nas unidades de saúde ainda é insuficiente, pois as filas de espera para se consultar com médicos especialistas ainda são enormes. E o Parque Pedreira ainda não saiu do papel...

Como já escrevi nesta coluna, esse Parque é um projeto totalmente exequível numa área que fica entre a Cohab 2 e o Recanto Paulistano. Mais especificamente, onde funcionava a antiga pedreira Itapevi-São João. No local, existem cavas naturais que poderiam ser transformadas em anfiteatros a céu aberto. E espaço suficiente para a construção de ciclovias, pistas de caminhada, campos de futebol, quadras de futsal, vôlei e tênis. Espelhos d’água, fontes, espaços de convivência e muito mais. O projeto existe desde a década de 80 e, colocado em prática, representaria não só lazer (que a cidade não tem), esporte e cultura para pessoas de todas as idades, mas também empregaria centenas de moradores.

O mandato da prefeita Ruth, do PT, está na metade. Se por um lado, não existe mais oposição na cidade (todos os vereadores foram eleitos pela coligação que apoiou a prefeita), por outro falta ao governo municipal dizer o que pretende para os próximos dois anos. Não sei se é um problema de comunicação ou decisão administrativa, mas poderia anunciar à população, por exemplo, que em dois anos o governo tem como meta asfaltar 100% das ruas; garantir a ligação de esgoto (saneamento básico) a pelo menos 80% das casas; ampliar o número de médicos nas unidades de saúde e acabar com as filas; fiscalizar de verdade os porcalhões (ou seja, colocar a Secretaria de Meio Ambiente para trabalhar... ou alguém já se esqueceu do vergonhoso “acidente” da cratera na via de acesso à Castello Branco?); poderia construir um Centro Cultural com salas de teatro decentes para valorizar nossos jovens talentosos, atores, dançarinos e músicos.

Isso para não citar Educação, Segurança, Receita, Obras... E a habitação? Não temos nem secretaria municipal constituída... E olha que a verba do PAC deve se intensificar com o governo Dilma. Seria uma boa hora para colocar em prática o Plano Diretor Participativo e apontar a demanda reprimida por moradia com o incentivo ao programa Minha Casa Minha Vida. E resolver de vez o problema da regularização imobiliária.

Caro leitor, não estou fazendo análise nem matéria crítica, estou apenas desabafando como um cidadão comum. Gostaria que Itapevi fosse de verdade uma cidade bonita, agradável, segura, atraente, desenvolvida e formadora de novos talentos em todas as áreas. Condições para isso nós temos, creio que falta coesão e clareza por parte do governo para dizer ao povo exatamente como e o que será feito nos próximos dois anos.

Feliz 2011!

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nem tudo são flores

O ano de 2010 passou rápido. O grande acontecimento do ano foi, sem dúvida, a eleição de Dilma, garantindo assim a continuidade do projeto de transformações no Brasil iniciado pelo presidente Lula. Agora, pesquisa Datafolha revela que para 83% dos brasileiros a presidente Dilma fará um governo igual ou melhor do que o de Lula. Ainda para 73% dos entrevistados, a petista fará um governo ótimo ou bom, só perdendo para a expectativa em Lula, em 2002.

Do lado das coisas boas, a “limpeza” no Complexo do Alemão, pela ação da Polícia e demais forças de estado, parece ter levado um pouco de paz aos cariocas. Agora, os traficantes expulsos tentam se reabilitar em outras favelas. Mas, ainda existem as milícias, cuja organização e modus operandi (modo de operação) podem ser conferidas com raro realismo no filme “Tropa de Elite 2” (de José Padilha), recorde de bilheteria nas últimas décadas.

Do lado negativo, fato chocante foi a prisão do goleiro Bruno, do Flamengo, acusado por ter mandado assassinar a modelo Eliza Samudio. Na nossa região, o assassinato do prefeito de Jandira, Braz Paschoalin, revela que há muitos meandros na política e que a violência ainda parece ser a solução para resolver desavenças. Não sabemos ao certo o que levou à morte do prefeito, mas a Polícia trabalha com duas linhas de investigação: uma aponta para o ex-secretário de Habitação, Aquino, que estaria disputando mais espaço e poder dentro do governo; e outra, para um empresário que mantinha contrato com a Prefeitura e uma rede de máquinas caça-níqueis na cidade. Ambos estão presos.

Mas, nesse mundo cão, notícias ruins sempre parecem ganhar das boas. Pelo menos, é o que vemos nos jornais. A sensação de que o mundo desaba a nossa volta é grande. Então, para constatar algo mais factível, cito a recente decisão da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo em atribuir aulas para 2011 de forma descentralizada. Ou seja, os professores escolherão as aulas na própria escola. É, sem dúvida, um modo antidemocrático e injusto de se atribuir aulas, pois um professor com mais pontos ou tempo de serviço pode ficar desempregado enquanto outro professor com menos pontos ou tempo de serviço pode conseguir até uma carga completa na escola em que trabalhou este ano. Sem falar que em 2010 o ano letivo foi até 22 de dezembro. É isso mesmo, caro leitor. Para cumprir o calendário de 200 dias letivos, os professores tiveram que “dar aulas” até a última quarta-feira... Como é que se diz mesmo? Só para inglês ver...

Sinceramente, espero que 2011 seja melhor que 2010. Que haja menos corrupção (porque acabar com ela é impossível), menos violência (idem), menos miséria (Dilma falou que vai acabar com ela), menos hipocrisia (difícil, faz parte do ser humano) e menos ódio ou inveja (herança, desde Caim e Abel).

Resta-nos ficar de olhos abertos, não nos envolvermos em maracutaias, sempre respeitar as diferenças e ser justo na medida do possível. Afinal de contas, o bem-estar da sociedade também se dá no dia a dia, nas pequenas ações, na cordialidade. Se nem tudo são flores, vamos pelo menos cuidar bem do nosso jardim. Boas festas!

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

sábado, 18 de dezembro de 2010

Ore por Jandira!

Durante os oito anos em que foi prefeito (2001-2008), Paulinho Bururu (PT) passou a chamar Jandira de “A Cidade da Fé”. Baixou inclusive decreto “entregando” Jandira nas mãos de “Nosso Senhor Jesus Cristo”. Também proibiu o funcionamento das máquinas caça-níqueis e criou a Lei Seca, fechando bares após as 23 horas. Mesmo após ter sofrido um atentado (segundo Bururu, foram oito tiros disparados da rua em direção à sua casa, no Centro), o ex-prefeito intensificou o combate aos caça-níqueis até a conclusão de seu mandato em 2008.

Agora, após quase dois anos da gestão Braz Paschoalin (PSDB), assistimos a esse episódio horrendo e inaceitável. O assassinato de uma autoridade, de um chefe de Executivo, cuja motivação ainda não está clara para ninguém.

São muitas as peças do quebra-cabeça: a prisão de quatro suspeitos (três deles ligados a uma facção criminosa); a participação de um dos detidos na tentativa de sequestrar a filha de Braz, neste ano; o assassinato do ex-vereador Mineiro, também neste ano, e do suplente de vereador Ivo do Gás. Reportagens da TV Globo dão conta de que Mineiro, em conversa gravada com o vereador Zezinho (PT), confessa que recebeu dinheiro para aprovar as contas de Braz, dando-lhe condições de disputar a eleição para prefeito. O ex-vereador era investigado pela Polícia.

Em entrevista a um programa da RedeTV, a prefeita Anabel (PSDB), o vereador Zezinho e o ex-prefeito Bururu disseram não se sentir seguros na cidade e pediram a apuração minuciosa bem como a punição dos envolvidos na morte de Braz. A prefeita assumiu o posto e começou a fazer mudanças em todos os escalões do governo. O PT, em boletim informativo distribuído à imprensa e à população, afirmou que não participará do governo de Anabel e que continuará na oposição.

Mas a peça mais recente do quebra-cabeça foi a prisão de Wanderley Aquino, secretário de Habitação de Jandira, acusado de apropriação indébita, mas que está sendo investigado por ligações com os suspeitos pela morte do prefeito. Computadores, documentos e até o lixo do gabinete do secretário foram apreendidos pela Polícia.

Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, resta à população de Jandira exigir o total esclarecimento dos fatos. Hoje, às 9 horas, acontece uma caminhada pela paz e pela vida em Jandira. A caminhada será encerrada na Praça Central, com a realização de um ato ecumênico.

Então, caro leitor, você que é da paz e a favor da vida, ore por Jandira...

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Viva o samba!


Gênero musical essencialmente brasileiro, o samba é comemorado nacionalmente no dia 2 de dezembro. Em 2004, o então ministro da cultura Gilberto Gil apresentou à Unesco o pedido de tombamento do samba como Patrimônio Cultural da Humanidade, na categoria "Bem Imaterial", através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No ano seguinte, o samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi proclamado "Patrimônio da Humanidade" pela Unesco, na categoria de "Expressões orais e imateriais".

Na verdade, demorou muito para que isso acontecesse. Demorou o suficiente para que o “samba de raiz” (partido alto e samba-de-roda) fosse transformado pela indústria fonográfica – com objetivos meramente comerciais sem se importar com a qualidade musical – naquilo que a partir da década de 90 ficou conhecido como “pagode romântico” ou simplesmente “pagode”.

Nas palavras do sambista e escritor e Nei Lopes, o pagode original da década de 80, que ainda carregava a essência do samba, foi transformado em um "samba diluído, expresso em um produto sem a malícia das síncopa e sem as divisões rítmicas surpreendentes, com letras infantilmente erotizadas e arranjos previsíveis e cada vez mais próximos da massificação da música pop".

A carreira de Nei Lopes começou nos anos 70 e ele vem desde os anos 90 esforçando-se pelo rompimento das fronteiras discriminatórias que separam o samba da chamada MPB, em parcerias com músicos como Guinga, Zé Renato e Fátima Guedes.

Na outra ponta, uma pesquisa realizada pelo cientista social Dmitri Cerboncini Fernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, propõe uma análise contemporânea dos gêneros populares urbanos e cria um escala de “autenticidade” com quatro subdivisões: o choro, o samba “tradicional”, o samba dos anos 80 e o samba dos anos 90. O choro é tido como o mais legítimo, seguido do samba representado por personagens surgidos na década de 1960, como Paulinho da Viola. O samba dos anos 80, ou pagode, é definido pelo estudo como aquele que tenta se ligar ao tradicional, embora não consiga de todo, dado o grande sucesso comercial já obtido. Zeca Pagodinho é um representante desse grupo. O samba dos anos 90, com grupos como Exaltasamba e Soweto, cujos artistas se espelham no grupo anterior e que não chega a ser classificado como samba pelos críticos, mas como “pagode comercial”. “Desses subgêneros musicais, o choro e o samba tradicional são tidos pelos intelectuais e críticos como os verdadeiros”, diz o pesquisador.

Fernandes analisou ainda que o gosto pelos subgêneros do samba está atrelado às camadas sociais. A maioria das pessoas que gostam do pagode comercial é jovem, com nível escolar mais baixo e moradores da periferia. Já o público do samba da década de 1980 é mais heterogêneo, com pessoas de uma faixa etária um pouco maior e que cursaram faculdade. O samba tradicional e o choro, por fim, possuem um público composto por uma maioria de pessoas com nível superior em boas faculdades, grande consciência política e que entendem de música. “Isso, de certa forma, reflete uma disputa simbólica entre classes no Brasil”, aponta Fernandes, que completa: “A denominação ‘autêntico’ parece, ao longo da história, ter servido à camada social dominante.”

A luta de classes também se dá no meio musical. Seja em qual gênero for, sempre que a forma e o conteúdo sofrerem simplificações, haverá um público pouco exigente moldado pela própria mídia. Enquanto a situação não muda, viva o samba (o de raízes)!

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

Fontes: Wikipédia; USP ; Blog da Cultura

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E agora, capitão Nascimento?

Sempre houve um clima de violência nas favelas do Rio de Janeiro. Agora com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em algumas comunidades, assistimos a reação dos traficantes que são forçados a migrar de favela e se reorganizarem para manter suas operações.

O tráfico de drogas é uma atividade comercial ilegal e é a principal fonte de renda desses criminosos. O dinheiro pago num papelote de cocaína ou numa trouxinha de maconha é o que financia desde a compra de armas até a propina paga a agentes corruptos do governo que fazem vistas grossas ao crime.

Quando as vendas de drogas caem, o sistema criminoso entra em crise. Como pagar o pessoal que dá “cobertura” para as operações de buscar, refinar e distribuir as drogas? Até que ponto o “trabalho” dos traficantes é voluntário ou ideológico?

Pois não é. Tudo gira em torno do dinheiro. Por isso, não se pode dizer que o que assistimos nos últimos dias são atos terroristas. São, antes, atos criminosos. O terrorismo, na literatura internacional, pressupõe a disputa e a tomada de poder do Estado. Trata-se de grupo político armado que tem como objetivo derrubar o governo. Para isso, procuram desestabilizá-lo por meio de ataques contundentes a prédios públicos ou símbolos do poder local. Alguns desses grupos são: IRA (Exército Republicano Irlandês), na Irlanda; ETA (Pátria Basca e Liberdade), na Espanha; FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia); Al Qaeda, Hamas, Al Jihad, Hizbollah e GIA (Grupo Islâmico Armado), no Oriente Médio.

Portanto, o que define um grupo terrorista é o seu objetivo final, a sua causa.

A causa dos traficantes ou de qualquer bandido, como os de colarinho branco, que se escondem atrás de mesas e imperam no aparelho de Estado, é a mesma. Lucrar. Ganhar dinheiro.

As operações do governo estadual do Rio de Janeiro possuem também um objetivo final e um estratégico. O objetivo final é passar a imagem de um Rio de Janeiro seguro. Ou seja, aumentar a sensação de segurança para que a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 transcorram na mais perfeita ordem. O objetivo estratégico é a ocupação das favelas, aproximando polícia e governo dos moradores, recuperando a confiança da comunidade.

Em “Tropa de Elite II” (de José Padilha), o capitão Nascimento paga um preço alto por enfrentar o “sistema”, principalmente o criado pelas milícias (grupos de policiais corruptos que “vendem” proteção à comunidade). Na vida real, esperamos que os capitães Nascimentos e toda a operação do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) não se tornem meros fantoches nas mãos de burocratas inescrupulosos, que pensam apenas em seus ganhos políticos.

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor

sábado, 20 de novembro de 2010

A elite e os miseráveis

Um jornalista da TV Globo de Florianópolis fez nessa semana um infeliz e preconceituoso comentário (confira no youtube.com, digitar: "qualquer miserável agora tem um carro"). O assunto do Jornal do Almoço, no dia 15 de novembro, era sobre os acidentes nas estradas durante o fim de semana prolongado. O apresentador Luiz Carlos Prates começa assim: “As pessoas saem desatinadas com uma pressa que não se justifica por nenhuma razão”. Em seguida, ele descreve sua viagem pela BR 101 e tenta explicar o motivo de haver tanto movimento nas estradas: “Antes de mais nada é a popularização do automóvel”. E emenda: “Hoje qualquer miserável tem um carro”. Após a pérola, Prates passa a desferir tantos golpes contra a classe pobre (ou seria agora classe média em ascensão?) que deixa no chinelo o personagem Caco Antibes (interpretado por Falabella, em “Sai de Baixo”).

Diz o jornalista: “O sujeito jamais lê um livro. Mora apertado numa gaiola que hoje chamam de apartamento. Não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele (sic), saem, vão para a estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Ao final, ele lista entre os motivos de haver acidentes nas estradas a “popularização do automóvel, resultado desse governo espúrio que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.

Entre outras acepções, “espúrio” significa “ilegal”, “desonesto”, “ilegítimo”. O jornalista num rompante de tagarelice ou verborragia acusa, dessa forma, o governo Lula de ser ilegítimo ao propiciar às famílias brasileiras a aquisição de um automóvel. Daí é possível deduzir que somente a elite é que tem o direito de usufruir um bem como este. Um rico com seis carros na garagem de sua mansão parece não incomodar o infeliz apresentador de telejornal. Mas um carro comprado com o suorzinho do peão seria o que então? Fruto de roubo? Apropriação indébita? Lamentável...

Entendo que o conceito de felicidade não deveria ser medido de acordo com o que se acumula de bens, mas sim o quanto de bem que fazemos (ou deveríamos fazer) às pessoas. Obviamente que numa sociedade de consumo todos são impelidos a consumir, estar bem é compreendido como “ter”. E, na lógica da produção capitalista, o que vemos é a indústria da destruição, pois os produtos duram cada vez menos e são fabricados cada vez mais, sempre com novos e mais implementados modelos.

Há ainda quem critique, de forma distorcida e mal compreendida, a necessidade de se haver um controle social da mídia...

Elioenai Piovezan
Jornalista e professor